quarta-feira, 16 de março de 2011

Balanço 1

Nos últimos anos, pouco a pouco, no Brasil e no mundo, as ideologias políticas, os pendores revolucionários e os fervores religiosos tradicionais perderam o poder de atração sobre o povo.
Começaram, ao mesmo tempo, a difundir-se seitas e práticas místicas que, com o apelo a biorritmos, drogas, astrologia, dietas místicas e feitiçarias, orientam a vida de milhões de pessoas, devolvendo-lhes o equilíbrio emocional indispensável para enfrentar suas existências azarosas, mas desativando-as como protagonistas da história, como construtoras de seus próprios destinos.
Darcy Ribeiro. Antropólogo de impacto mundial.

sábado, 5 de março de 2011

O Jeitinho Brasileiro - A arte de ser mais igual que os outros. 4ª edição. Lívia Barbosa. Editora Campus.
No prefácio, escrito por Roberto DaMatta, diz: O jeitinho se constitui num modo obrigatório de resolver aquelas situações nas quais uma pessoa se depara com um 'não pode' de uma lei ou autoridade e - passando por baixo da negativa sem contestar, agredir ou recusar a lei, obtém aquilo que desejava, ficando assim mais igual do que os outros.
Na democracia à brasileira é muito mais importante conhecer a pessoa implicada, do que a lei que governa uma dada situação.
Percebe-se que na sociedade brasileira há um grande descompasso existente entre a norma e a prática social. Nós temos uma certa maneira peculiar de lidar com a idéia de igualdade. Há que se reparar que cultivamos práticas sociais, econômicas e políticas conflitantes, em muitos aspectos, com nossas representações igualitárias. Descendemos de uma sociedade altamente hierarquizada como era a portuguesa do século XVI, onde tudo estava previsto e codificado nas leis, até mesmo os diferentes modos de tratamento entre as pessoas. Porém ressalva a autora: não havia descompasso entre as normas (jurídico) e a prática social, pois os códigos manuelinos, filipinos e afonsinos consubstanciavam a desigualdade. Diferentes penalidades conforme o status do infrator. E quando os movimentos políticos e sociais do século XIX nos levaram de encontro aos novos valores da modernidade (igualdade, indivíduo/cidadão de direitos), não trocamos nossos valores antigos pelos novos, apenas superpusemos às nossas velhas calças um paletó novo e, assim, criamos um sistema social onde os códigos, modernos e tradicionais, se entrecortam, permitindo uma multiplicidade de opções igualmente válidas a todos que aqui vivem.
A autora para fazer uma análise mais aprofundada do jeitinho no Brasil, utiliza-se de duas categorias sócio-antropológicas que, segundo ela, estão intimamente ligadas ao trabalho do antropólogo Louis Dumont. Uma delas é o indivíduo (cidadão) como valor, como representação central da sociedade ocidental. Seu universo é constituído por leis e decretos universalizantes e impessoais que buscam a igualdade através de sua aplicação e operação prática. Caracteriza-se pela percepção de si mesmo e dos demais como universos insólitos. As "potencialidades" de cada um são apreendidas como as reservas que devem ser desenvolvidas e exploradas com criatividade pela sociedade, que deve coibi-las ao mínimo.  São espaços de domínios autônomos, onde não se permite a interferência de um no outro. Cada um tem o seus próprios méritos e conquistas. É a idéia do self-reliance (auto-suficiência) É o princípio de que cada indivíduo é o seu próprio mestre, em controle absoluto de seu próprio destino e, portanto, absolutamente livre. Os avanços e os recuos na vida de cada pessoa estão condicionados aos seus próprios méritos. Esse comportamento, já que a autora trabalha em comparação, é tipico dos EUA. A igualdade norte-americana é dada pela lei e a ela circunscrita. Como um princípio ordenador, pelo qual grupos e pessoas diferentes se organizam para atuar, em conjunto, na sociedade. A igualdade não é objetivo central do sistema norte-americano. Lá, o lema é : Igualamos para diferenciar. cada um é dono do próprio caminho, liberdade para tal lhe foi concedida. ( Lá a idéia do Loser e do Winner é muito representativo disso) É o indivíduo como valor central. 
O personagem simétrico oposto ao indivíduo, típico das sociedades tradicionais, hierárquicas e holistas (Segunda categoria de Dumont), é a pessoa. O indivíduo não é maior que o todo. Não é fragmentado. O contato com a totalidade se estabelece através da mediação de clãs, linhagens, famílias, parentelas, etc. Ao contrário do que ocorre nas sociedades modernas individualistas, o espaço interior de cada um de seus membros não é tomado como basilar para a organização do todo. Porém, no Brasil, e isso a autora foca também o estudo de DaMatta com base em Dumont, a hierarquia e o individualismo seriam complementares. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a sociedade é englobada por uma única ética - a individualista, no Brasil conviveríamos com duas, apresentando um universo social complexo e tenso. O que DaMatta chama de dilema brasileiro, seria essa tensão permanente entre as categorias indivíduo e pessoa. No Brasil, a igualdade se apresenta sob outras formas.  Além de se definir em relação ao sistema social em alguns domínios, define-se também, e talvez de forma preponderante, em um sistema moral emcompassador, que percebe o indivíduo não só como o sujeito normativo das instituições, mas, também como sujeito das situações. Ex: brasileiro vê uma fila, e não concebe aquilo como algo legal de cumprimento de regras, mas logo enfoca uma necessidade humana, moral e pessoal para tentar conseguir ser atendido primeiro. E quem é que vai negar humanidade, simpatia e cordialidade, no Brasil? O indivíduo sujeito normativo das instituições cede lugar ao indivíduo sujeito normativo das situações. E aí se estabelece a diferença entre igualdade moral e igualdade legal.  Entre patrão e empregado não há apenas uma obrigação legal e jurídica. Mais do que isso, pode-se estabelecer deveres morais na relação empregado e empregador. Ex: eu te contratei,  sem mim você ficaria desempregado, você me deve esse favor a mais! Você tem que cumprir com as  suas obrigações mais do que está instituído apenas por uma relação jurídica. O íntimo, o relacional, o pessoal abarcando o domínio do impessoal. E o que é o favor? Parece que o devedor, nesses termos, fica com uma obrigação moral em relação ao credor. E aí a idéia de jeito pode entrar. Se bem que a autora faz uma distinção entre o que seja jeito e favor, e também uma distinção entre o que seja jeito e corrupção.Embora a linha que divide esses termos seja muito complexa de ser definida exatamente.
Interessante: O que é invocado, muitas vezes, para ultrapassar a regra universalizante e igualitária são justamente argumentos que enfatizam a igualdade : " Meu irmão", " companheiro", dá um jeito aí! Não é uma igualdade dada pela lei, mas pela condição humana das pessoas. O direito de todos à igualdade é, permanentemante, relativizado pela igualdade de fato entre todos. A igualdade de direitos é colocada num plano hierarquicamente inferior à igualdade moral.
Parece que queremos dar um tratamento personalizado a todos os cidadãos brasileiros e nos manter, ao mesmo tempo, sob o império de leis universalizantes.
O jeitinho: um drama social brasileiro. Usamo-lo tanto como símbolo de nossa desordem institucional, incompetência, ineficiência e de pouca presença do cidadão no nosso universo social, louvando, assim, o nosso "atual, moderno e universal" compromisso com a ideologia individualista, ou como emblema de nossa cordialidade, espírito matreito, conciliador, criativo.
Entendi que o jeitinho exprimia, aliás de forma paradigmática, extamente uma relação central para a sociedade brasileira: a de uma visão hierárquica com outra igualitária, a aprtir de uma elaboração acentuada e paradoxal da noção de igualdade.O ritual do jeitinho procurava resguardar elementos de ambas, ao reproduzir atributos pertencentes a essas duas vertentes. Como mecanismo de transformar indivíduos em pessoas, ao tentar fugir da submissão à universalidade da lei, o jeitinho é holista e hierárquico. Mas, como forma de navegação social que se baseava na igualdade substantiva de todos, em flagrante desconsideração aos atributos da identidade social (status, poder - cada um pode dar jeito, rico ou pobre), é individualista e moderno. 
Em que domínios conseguimos realizar mais plenamente nossos ideais igualitários? Em que domínios mantemos ainda nossos ideais holistas e hierárquicos?
O jetinho pode ser também um mecanismo de transformar indivíduos em pessoas. 
Bom,  autora faz uma análise aos discurso eruditos e popular sobre o jeitinho. O primeiro negativo, o segundo positivo, se bem que há também o discurso popular negativo. faz crítica aos dois. Interessante a crítica que ela faz no começo do livro ao analisar algumas visões de alguns autores que já trataram do tema. Um deles é Guerreiro Ramos. Esse autor acreditava que isso era um resquício da nossa sociedade arcaica, pré-industrial. E que a modernidade e a industrialização (dois fenômenos) dariam conta de apagar esse "atraso" da vida social brasileira. Pois bem, não percebe como algo estruturante e (re)ssignificado das nossas relações do cotidiano.
Enfim, a autora fala dos idiomas do jeitinho ( e aí entra a questão de gênero - feminino e masculino). Fala do ritual de se pedir um jeito. fala até de uma técnica, que seria envolver emocionalmente no "seu problema" a pessoa de quem se depende naquele momento. Fala dos domínios do jeitinho, no qual ele consegue estabelecer., com os sentimentos, um espaço pessoal no domínio do impessoal. Não só nos domínios da burocracia, mas em qualquer lugar que fale na idéia de se dar um jeito. 
Só mais uma coisa: corrupção e favor. Quanto mais favorável for a postura das pessoas em relação ao jeito, mais ela achará distinto da corrupção. Quanto mais crítico e negativo, mais semelhante. 
Há vários pontos no livro, espero ter conseguido colocar alguns bem marcantes.



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

 A Revolução Burguesa no Brasil - Ensaio de Interpretação Sociológica. Florestan Fernandes. 2006. Editora Globo.
Com maestria, Florestan interpreta o nosso passado com todo o instrumental que lhe é específico à sua disciplina. É o sociólogo Florestan que vai buscar compreender a especificidade da dinâmica sócio-política e econômica da sociedade brasileira. Traçarei alguns pontos que permeiam a obra, para que possamos ter,  de início, uma visão mais geral dela. Dado o tamanho do trabalho intelectual de Florestan, não colocarei todas as reflexões, até mesmo pelo espaço que aqui reservo, e também devido a complexidade que requer cada análise feita pelo autor.
Primeiro ponto: o modelo brasileiro de revolução burguesa, isto é, de implantação do capitalismo, não é uma repetição dos modelos clássicos europeu (Revolução Francesa) ou norte-americana (Guerra Civil Americana). Não houve no Brasil um rompimento drástico com o passado colonial e escravocrata. Pelo contrário, o velho se funde no novo, o arcaico e o moderno estão em simbiose constante.
Mas quando e como se dá o advento do surgimento do capitalismo no Brasil ? Bom, quatro pontos elencados por Florestan: O primeiro acontecimento é a nossa Independência (1808-1822). Criação de um Estado. Com isso, nossas elites senhoriais/escravocratas fundem o poder patriarcal junto ao poder de Estado, burocratizando-se na legalidade jurídico-política e na nova ordem que surgia. O rompimento do estatuto colonial, fez com que o comércio exterior dos produtos brasileiros, que era controlado de fora, passasse a ser controlado de dentro. Houve um excedente econômico interno, com a eliminação da intermediação da Coroa Portuguesa, que passou a ser investido internamente, diversificando a produção e estimulando o consumo. As cidades começaram a se desenvolver. Sem esquecer, que apesar de tudo, ainda éramos uma sociedade escravocrata, latifundiária, monocultora e exportadora. Nossa independência foi política, onde nesse periodo ocorreu a absorção, aos poucos, de novos agentes e modelos de ação econômica. Com o Estado, o poder deixará de ser uma imposição externa para organizar-se a partir de dentro. As elites nativas poderão atuar sem o controle da Coroa. O Estado integrou os interesses de todos os senhores agrários locais e regionais. 
Segundo acontecimento: o produtor brasileiro tornou-se um sócio menor da burguesia dos países capitalistas centrais. A redistribuição do excedente (exploração) agora foi posta sobre novas margens. Houve transferência, da Europa para o Brasil, de empresas especializadas em transações comerciais de exportação e importação e em operações bancárias. Surge novos agentes sociais e econômicos (altos comerciantes, vendedores, banqueiros). A elite agrária começa a investir na cidade, com a idéia de lucro. A partir de agora, a dominação se dá também dentro do país. Porém nossas elites sempre mantiveram o papel que coube a elas: ser uma sócia menor das elites dos países capitalistas centrais. Explorar e dividir o ganho obtido aqui , com as elites dos países centrais.
Terceiro acontecimento: dois agentes fundamentais para a consolidação da revolução burguesa no Brasil segundo Florestan: o fazendeiro de café, do oeste paulista, que passou a investir fora do contexto econômico da grande lavoura. O fazendeiro ligou-se com o especulador financeiro.
O capital se concentrava nas cidades em instituições financeiras e ameaçava a grande lavoura, ainda senhorial e tradicional. Os fazendeiros do oeste paulista perceberam o novo tempo: substituíram a mão-de-obra escrava, reduziram os custos, usaram novas técnicas. Surgiu outro tipo de fazenda: racional, tecnológica, assalariada, voltada para o aumento da produtividade e do lucro. 
A elite agrária, oligarquia: Sua fazenda não é mais o seu domínio, seu estado, sua moradia, é a sua empresa.
Outro agente é a figra do imigrante. Eles trouxeram especialização tecnológica, e padrões de vida mais racionais. Eles apareceram na história do Brasil quando a economia de mercado exigia a substituição do trabalho escravo pelo livre. Vieram para fazer a América. Ficarem ricos. O imigrante foi um agente dinâmico e múltiplo: ocupou todas as posições, de assalariados a agricultores, comerciantes, industriais. 
Alguns pontos do Brasil (São Paulo principalmente) a sociedade brasileira tenderá a romper com as relações de produção escravistas e a implantar relações de produção tipicamente capitalistas, ou seja, tenderá a se constituir como uma ordem social competitiva. Esse é o quarto acontecimento. Porém,  nas sociedades nacionais dependentes, o capitalismo foi introduzido antes da constituição da ordem social competitiva. O espírito do capitalista chegou primeiro à esfera comercial e só depois constituiu as relações de produção que lhe são correspondentes. A ordem escravista colonial brasileira resistiu quase um século à sua superação por uma ordem social capitalista. ( Até hoje resquícios desse passado colonial pode ser encontrado nos rincões desse Brasil). O arcaico presente no moderno! 
A oligarquia tradicional agrária estava aliada à elite dos negócios comerciais e financeiros. Foram elas que dominaram, compactuaram-se, tencionaram-se dentro da ordem, conciliaram-se e praticaram os interesses do Brasil.
O que caracteriza a nossa burguesia é o seu aparecimento débil, tardio, hesitante, limitado, dependente, conciliador. Os novos agentes econômicos que se fundiram com a nossas elites agrárias, queriam  apenas permanecer e assegurar seus privilégios, seus interesses. Não assaltaram o poder e mudaram a ordem social. Adptaram-se inovando, o que houve aqui foi uma modernização conservadora. A atração que a nossa burguesia sentiria pela oligarquia, prontificava uma unificação das classes possuidoras.
Nosso capitalismo constituiu-se de forma dependente, subdesenvolvido e imperializado. Nossa economia era joguete de acumulação para outra economia. 
Florestan aponta que o burguês já surge no Brasil, como uma entidade especializada, seja na figura do agente artesanal inserido na rede de mercantilização da produção interna, seja como negociante. O senhor de engenho, agrário, rural aburguesou-se com o passar do tempo. Pois ele não é, no começo de nossa colonização, um agente que pensa em investimento, lucro, ganho de excedente. Até porque a Coroa (fiscalização) pegava a maior parte do que era aqui produzido.Lucro, ganho, risco calculado? Isso veio depois com os novos agentes sociais e econômicos. 
Nossa burguesia foi tão mesquinha, egoísta, que em vez de fundar uma nação onde todos poderiam usufruir dela, ficaram presos a seus interesses particularistas. Inovaram aliando-se com a velha elite. Não estavam preocupadas em romper com o passado, mas com as possibilidades de ganhos, de status (riqueza), de privilegiamento de posição dentro da hierarquia social. Seu poderio econômico e inovador não conseguiu abranger o nação como um todo. Não queriam uma revolução social, no sentido amplo do termo, pois não queriam desfazer de seus interesses. Assim, quando o povo cobra sua indignação por séculos de exclusão, nossa burguesia mostra sua verdadeira face ultraconservadora: Ditadura. Repressão.
Nosso capitalismo: dependente, arcaiza-se modernizando-se, moderniza-se arcaizando, subdesenvolvido.
Autocracia: concentração exclusivista e privatista do poder. Esse é idéia de uma autocracia burguesa. Que não vê nas suas recorrentes crises (construção de um país mais justo e sem exclusão), um momento de reflexão para se ampliar a cidadania, a democracia. Mas sim, para manter seus privilégios, nem que seja a ferro e fogo.
As representações ideais da burguesia valiam para ela própria e definiam um modo de ser que se esgotava dentro de um circuito fechado. 
Segundo ponto: A dominação burguesa aparece como conexão histórica não da revolução nacional e democrática, mas do capitalismo dependente. O desenvolvimento capitalista sempre foi percebido e dinamizado pelos estamentos ou pelas classes dominantes, segundo comportamentos coletivos egoísticos e particularistas. O que estava em jogo? Responde Florestan: a defesa do status quo, da propriedade privada e da iniciativa privada.
O Estado serviu como eixo político de recomposição do poder econômico político e social da burguesia. A nossa burguesia nunca se rebelou contra as burguesias dos países hegemônicos, mas sim contra a massa do proletariado, contra a massa pobre e assalariada. Quanto mais se aprofunda a transformação capitalista, mais as nações capitalistas centrais necessitam de parceiros sólidos na periferia dependente e subdesenvolvida. 
A revolução burguesa na periferia, sobretudo, foi um fenômeno politico (recomposição das elites, do poder). O crescimento e as mudanças economicas não geraram um país democrático. A economia foi inovada para a elite. Para atender, em ultima instância, seus interesses. Há uma instauração de uma oligarquia coletiva das classes possuidoras, que só acreditam na "mudança" de cima para baixo. 
Capitalismo selvagem: um capitalismo que associa luxo, poder e riqueza, de um lado, à extrema miséria, opróbrio e opressão, do outro. 

domingo, 30 de janeiro de 2011

 
A Sociologia no Brasil. Editora Vozes. 1977. petrópolis. Rio de Janeiro.
Esse livro de Florestan Fernandes aborda a construção da sociologia no país, bem como a produção do pensamento sociológico no Brasil. Dentre os vários pontos que Florestan aborda, vou colocar  aqui um ponto  interessante analisado por ele, que é o de como a sociologia é vista (compreendida) no país. 
São noções, como diz Florestan, extracientíficas de estudo sociológico, que por fim, acabam atrapalhando o desenvolvimento da sociologia enquanto ciência que contém suas especificidades e métodos próprios.
São três as noções que colidem com a definição positiva de estudo sociológico. 
1ª - ) A mais generalizada e simples faz dele ( o estudo sociológico) um equivalente de qualquer sorte de reflexão sistemática sobre temas ou problemas sociais do país. Por isso, políticos, jornalistas, ensaístas, romancistas, historiadores, folcloristas qualificam como sociológicas, com a maior boa-fé, produções intelectuais que não tem nenhuma relação com os propósitos da investigação sociológica propriamente dita. 
☻Essa aprimeira noção de estudo sociológico embaraça, enormemente, o exato entendimento do caráter da sociologia como especificidade científica. Ela identifica de tal forma o conhecimento científico com o conhecimento do senso comum, que afinal de contas nada poderia justificar a própria existência da sociologia como matéria científica.

2ª - ) Uma segunda representação, menos divulgada mas relativamente enraizada, converte a sociologia em polarização intelectual de atitudes e convicções ideológicas. Ensaios inspirados pelo liberalismo, pelo integralismo, pelo socialismo, etc.; são encarados como constribuições sociológicas.
☻A segunda noção de estudos sociológicos precisa ser encarada através de dois contextos diversos de avaliação ( No contexto positivo, constitui-se como tentativas racionais de autoconsciência e de explicação realista das condições de existência social, disposição intelectual do espírito, abre caminho à investigação sistemática dos fenômenos sociais). Em contextos de avaliação estritamente negativos, a sociologia é projetada numa área de ameaça aos fundamentos emocionais e morais da ordem estabelecida. Nesse caso, tudo que pode ser entendido como sociológico deve ser repelido como fonte de perigos reais ou potenciais para os costumes ou a mentalidade do povo brasileiro.

3ª - ) Na terceira modalidade de definição societária, a sociologia é aceita como disciplina autônoma, com intuitos cientifizantes, a ser utilizada, com a cooperação de especialistas, como recurso racional de compreensão do presente, de propaganda e de acomodação intergrupal.
☻A terceira noção de estudo sociológico envolve vinculações intelectuais e práticas mais complexas. A sociologia pode ser representada como especialidade científica, mas sua apreciação axiológica é feita em termos de preocupações ultracientíficas, nascidas do modo de entender sua utilidade na realização de certo fins racionais, de suma importância para determinadas camadas sociais. No Brasil, uma relação dessa ordem nasceu dos interesses que a burguesia urbana e industrial empenhou no domínio e na manipulação de técnicas sociais, que pareciam garantir maior eficácia na organização do poder e na preservação da paz social.


" Quem quer saber da verdade, vista pela ótica do sociólogo? E o que é a verdade, numa época de crise civilizacional, na qual a sociedade burguesa vive a negação de suas ideologias e de suas utopias fundamentais? A burguesia revolucionária precisou da sociologia, como técnica de autoconsciência, de previsão histórica e de ação social construtiva. No momento atual, de contra-revolução, as burguesias do centro ou da periferia não apelam mais para a imaginação criadora dos cientistas sociais. Elas dependem de uma tecnologia incorporada à ordem e que gravita em torno do terror organizado e institucionalizado, para o qual o sociólogo só interessa se deixar de ser um investigador, para ser um funcionário". Florestan Fernandes.

" O sociólogo deve estar preparado para produzir o conhecimento sociológico necessário ao entendimento e à transformação da ordem existente". Florestan Fernandes.

Essas frases são do livro mesmo.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Raízes do Brasil. Considerado um dos livros clássicos para a compreensão do Brasil. Seu autor, Sérgio Buraque de Holanda (1902-1982), historiador, é um dos nossos grandes intérpretes da realidade brasileira. O livro foi publicado pela primeira vez, no ano de 1936. Revisto e modificado alguns pontos, em 1947, pelo próprio autor. Raízes do Brasil. Companhia das Letras. 26ª Edição.
Neste livro, Buarque trabalha, através de uma metodologia Weberiana (Tipos Ideais), a exploração de conceitos polares, mas que no entanto, são postos em uma confluência dialética. Um suscita o outro. Ambos   se interpenetram.
Trabalho & Aventura. O Semeador & O Ladrilhador. Método & Capricho. Rural & Urbano. Norma pessoal & Impulso afetivo. Burocracia & Caudilhismo. 
Pontos do livro: A questão do Homem Cordial: presupõe o predomínio, no homem brasileiro, dos componentes de aparência afetiva. O que não significa questões de bondade. Coisas que procedam da esfera do íntimo, do familiar, do privado. O peso das relações de simpatia penetrando até mesmo a esfera pública. E nisso se faz presente a antiga dificuldade do brasileiro em distinguir os interesses da esfera pública com o da esfera privada. ( Aqui no Brasil há um predomínio das tradições herdadas da família do tipo partriarcal). São as relações da Casa Grande, lugar do senhor, cuja vontade é lei, lugar do compadrio, do protetorado, do amigo conhecido, dos vínculos afetivos e pessoais, das brechas nas leis para ajudar os nossos íntimos. Diz Buarque que: As relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós. 
Os funcionários públicos que iam compondo a estrutura administrativa do Estado (patrimonialista) brasileiro, advindos dessas famílias do tipo patriarcal, não se coadunava com a idéia de um funcionário burocrático, guiado unicamente pela racionalidade das leis. Imparcial.
Para o funcionário patrimonial, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático, em que prevalecem a especialização das funções e o esforço para se assegurarem garantias jurídicas aos cidadãos. 
Buarque fala também que nos países ibéricos, e os países por eles colonizados, sempre houve uma grande valorização em torno do prestígio pessoal. O personalismo, o mérito pessoal, a frouxidão das instituições, a autarquia do indivíduo, o gosto pela aventura - especificamente os portugueses- ( o aventureiro é aquele que tem como ideal colher o fruto sem plantar a árvore), a repulsa pelo trabalho regular, a paixão que não tolera compromissos. O gosto da aventura teve influência decisiva em nossa vida nacional.
Vai complementado Buarque ao longo do livro, que nossos colonizadores, por exemplo, queriam extrair de nosso solo execessivos benefícios sem grandes dificuldades. Nossos colonizadores eram, antes de tudo, homens que sabiam repetir o que estava feito ou o que lhes ensinavam a rotina. ( Ateavam fogo no mato, assim como faziam os índios). Exploração de solos. Técnicas rudimentares. 
A rotina e não a razão abstrata foi o princípio que norteou os portugueses. A repulsa firme a todas modalidades de racionalização e, por conseguinte, de despersonalização tem sido, até aos nossos dias, um dos traços mais constantes dos povos de estirpe ibérica. 
Só pra constar. A questão do pensamento. O trabalho mental era tido como algo que se contrapunha ao trabalho que fustigava o corpo. O trabalho mental pode constituir a ocupação em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Porém, o trabalho dessa "inteligência" é simplesmente decorativa, e, acima de tudo, existe em função ao contraste com o trabalho físico, fazer oposição ao trabalho servil, que não cabe à nobreza, fazer oposição às atividades mecânicas. ( que é um contraponto às chamadas atividades tidas como liberais). É a inteligência como ornamento e prenda. Amor a frase sonora, erudição ostentosa, à expressão rara. O Bacharel (entenda-se aqui principalmente o bacharel em Direito), por exemplo, que, data venia, faz o uso de uma linguagem morta. São as virtudes senhoriais  predominando (das nossas elites), ditando às regras. Importando modelos de pensamento. Nunca pensando à própria realidade, uma vez que ela tinha horror ao que a circundava.
A família partricarcal fornece, assim, o grande modelo por onde hão de se calcar, na vida poítica, as relações entre governantes e governados, entre monarcas e súditos.



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Roland Corbisier (1914-2005). Foi um filósofo brasileiro. Foi um dos fundadores e o primeiro diretor do ISEB ( Instituto Superior de Estudos Brasileiros). Proferiu várias conferências e estudos sobre o pensamento de Hegel. O livro data do ano de 1959. Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Ministério da Educação e da Cultura. Rio de Janeiro.
Neste livro há várias pontos de discussão. Porém, quero trazer à tona uma idéia sobre a nossa formação que o autor expôs neste livro. Afirma ele que o Brasil não foi configurado em função dele mesmo, mas do exterior. O homem brasileiro não foi configurado por uma história e uma cultura próprias, mas por uma história e uma cultura estranhas. Estivemos sempre voltados para fora, para o exterior, em função de cujos interesses e valores sempre vivemos. O que havia de próprio no brasileiro era o alheio.
Afirma que a alienação é parte constituinte da cultura. A alienação é a própria condição dessas culturas.
A colônia é organizada para funcionar como  instrumento da nação colonizadora. E nisso, diz o autor, há uma intensa exportação e importação não só de mercadorias, mas também de valores, categorias, hábitos e formas de vida. Pois a relação que se estabelece, segundo Corbisier, é a relação entre Colonizado/Colonizador; Dominado/Dominador. 
Corbesier estabelece com isso um paralelo: Plano econômico e Plano cultural. Diz: Assim como, no plano econômico, a colônia exporta matéria-prima e importa produto acabado, assim também, no plano cultural, a colônia é material etnográfico que vive da importação do produto cultural fabricado no exterior. Ora, produzir matéria-prima é produzir o não ser, a mera virtualidade, a mera possibilidade de ser, aquilo que virá a ser quando for transformado pelos outros, quando receber a forma que os outros lhe imprimirem. Importar o produto acabado é importar o ser, a forma, que encarna e reflete a cosmovisão daqueles que a produziram.
Exportamos o não ser e importamos o ser.  Contemplamos e especulamos sobre o que nos é alheio. 
O nosso problema constitui, portanto, pensar a própria formação, voltar os olhos, de fato, à realidade que nos cerca.